Ser fã de Arminda na novela 'Três Graças' não é algo fácil. E talvez exatamente por isso eu ache que ela é absolutamente necessária na televisão brasileira. Na atual novela das nove da Globo, a vilã vivida por Grazi Massafera incomoda, provoca rejeição e gera desconforto.
Arminda carrega a raiz mais clássica de Aguinaldo Silva: ricaça, bela, venenosa, dona de bordões, frases cruéis e de uma franqueza que beira o insuportável. Ela é herdeira direta de vilãs icônicas como Nazaré Tedesco ('Senhora do Destino'), que até virou personagem no "The Masked Singer". Rejeita visitas inesperadas sem culpa, humilha funcionários sem rodeios, decreta que alguém “não tem cacife” nem para estudar Medicina. É cruel como toda boa vilã de novela da Globo precisa ser.
Arminda não é simpática, nem extrovertida, nem tenta conquistar o público com charme ou humor. Ela é sarcástica, perspicaz e profundamente humana, porque, apesar de se achar sempre no controle, segue vivendo do único jeito que sabe: pela teimosia, pela soberba e pela convicção de que o mundo deve se adaptar a ela. Isso incomoda. E é exatamente por isso que funciona.
Grazi Massafera está muito bem no papel. Segura, fria quando precisa ser, afiada no texto e confortável na maldade.
Ao mesmo tempo, o problema de Arminda não é a atriz, é a falta de uma rival à altura. Sem um confronto real, a personagem gira em falso, como uma vilã infantilizada, quase caricata, que cria conflitos porque não tem para onde ir.
A rival existe, Zenilda (Andreia Horta), esposa de Ferette (Murilo Benício), amante de Arminda. Mas enquanto Zenilda não descobre a traição e não se revolta de verdade, não há embate. Sem esse choque, Arminda anda em círculos, perde potência e parece menor do que poderia ser.
Ainda assim, há algo fascinante nela: a dor mal resolvida. Arminda ama o amante, mas é controlada por ele. Rejeita a mãe e o filho por traumas do passado, mas nunca consegue se afastar completamente.
Não é uma boa mulher e nem precisa ser. Ela é complexa, contraditória e, hoje, a pior pessoa da novela das nove.
Com a volta de Rogério (Eduardo Moscovis), o marido que ela ajudou a matar, Arminda tende a mostrar seu lado mais cruel. E eu sigo sem suportá-la. Mas sigo assistindo, porque vilãs assim não existem para serem amadas, e sim para nos lembrar por que a teledramaturgia brasileira ainda sabe provocar.